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Artigos sobre relacionamento

Amores de carnaval

Amores de carnaval
O carnaval é uma época que em geral os solteiros – mesmo aqueles que buscam um namoro sério – não se queixam tanto assim de ser solteiros. É um período em que há uma liberdade consentida, uma espécie de licença social para se fazer coisas que no restante do ano são “proibidas” ou ao menos seriam vistas com estranheza. Isso envolve desde se fantasiar até sair com diversas pessoas em um curto período de tempo. Sabemos que durante esses quatro dias beija-se muito e o sexo é tão frequente que chega a preocupar as autoridades de saúde pública.

Mas e depois do carnaval, o que se pode esperar? Diz o senso comum que “amor de carnaval” termina na quarta-feira de cinzas. Será? Terá ele menos chances de sucesso do que relações aparentemente casuais que acontecem em outros contextos? Eu diria que há casos e casos. Eu mesma conheço alguns casamentos de pessoas que se conheceram no meio da bagunça do carnaval. Aliás, todos os anos emissoras de televisão nos mostram casos assim. Por isso, penso que não há uma regra geral. Um casal que se conhece no carnaval pode levar um relacionamento adiante, assim como este pode não vingar. Eu diria que as chances provavelmente são as mesmas dos outros períodos do ano. E o que vai determinar a continuidade ou não? A intenção de ambos os envolvidos e a maneira como a relação caminha. Vejamos como.

Em primeiro lugar, pensemos nas intenções de cada um. Uma pessoa pode sair – no carnaval ou não – com a intenção de apenas “ficar” e/ou eventualmente fazer sexo com alguém. Nesse caso, a ideia não é ter um relacionamento, namorar, nada disso. Assim, o encontro com o outro a princípio tende a não ter continuidade. Se as duas pessoas tiverem as mesmas intenções, melhor ainda, pois não haverá uma expectativa maior sobre o relacionamento.

Acontece que relações humanas não são tão objetivas assim. Por isso, as intenções podem se modificar no meio do caminho. Quantos namoros surgiram a partir de relacionamentos casuais, dos quais pouco se esperava? Assim, mesmo as intenções sendo apenas um romance de carnaval ou até o sexo casual, o “andar da carruagem” pode levar ao amor e ao desejo de ter uma relação mais séria. E é justamente a maneira como o encontro acontece, o sentimento que desperta em ambos, o desejo de se encontrar de novo, entre outros, o que vai levar ou não a relação a um namoro. Ou seja, são fatores muito mais subjetivos do que objetivos. O “plano inicial”, as intenções que cada um tem no início, pode facilmente se modificar – e frequentemente se modifica.

Dito isso, o que podemos esperar daquele(a) “ficante” do carnaval? O que esperar dessa relação aparentemente sem futuro, que em muito se assemelha a outras que acontecem também “fora de época”? Qualquer coisa. Isso mesmo, pode-se esperar qualquer coisa, desde nunca mais encontrar a pessoa até se casar com ela.

Uma coisa essencial em qualquer relacionamento é não tentar prever tudo, do início ao fim. É comum que a angústia frente ao desconhecido, o fato de não saber o que nos vai acontecer, acabe levando muitas pessoas a se atrapalharem nesse início de relação. Às vezes consideram que o outro está interessado apenas em algo casual e logo desistem de sair com ele. Esquecem-se, no entanto, de que as relações não são baseadas em critérios objetivos, e que, como dissemos, o “plano inicial” pode se modificar a qualquer momento.

Se relacionar é um exercício de tranquilidade e paciência. A angústia geralmente acaba prejudicando o andamento das coisas e acaba nos levando a tentar antecipar as reações do outro. Por isso, antes de julgar se a outra pessoa quer ou não algo sério, o mais importante é poder estar inteiro(a) na relação sem uma preocupação excessiva sobre seu futuro. Muitas vezes a capacidade de aproveitar os momentos e curti-los junto com a outra pessoa, independentemente do que acontecerá adiante, colaborará de maneira significativa para o sucesso e a continuidade do relacionamento.

escrito por

Dra. Mariana Santiago de Matos Psicóloga

Psicóloga e psicoterapeuta. Doutoranda em Psicologia Clínica pela PUC-Rio. Mestre em Psicologia Clínica pela PUC-Rio (2004) com dissertação sobre relacionamentos amorosos na adolescência